Na década de 1970, a literatura maçônica no Brasil estava fortemente influenciada
pelas obras de autores como Joaquim Gervásio de Figueiredo, Charles Webster
Leadbeater e Jorge Adoum. Tais obras eram fartamente publicadas pela Editora
Pensamento. A chamada “Escola Histórica”, ou “Documental”, tinha pouca ou nenhuma
influência na maior parte dos maçons brasileiros — tem hoje?
Tanto Joaquim Gervásio de Figueiredo quanto Jorge Adoum e C. W. Leadbeater eram
ligados à Sociedade Teosófica (organização fundada nos EUA, em 1875, por Helena
Petrovna Blavatsky e Henry Steele Olcott) e entusiastas da Co-Maçonaria — Maçonaria
Mista, para homens e mulheres.
A Co-Maçonaria nasce na França com a Iniciação de Marie Deraismes em 1882, na Loja
“Les Libres Penseurs”. Esta Loja pertencia à Grande Loja Simbólica Escocesa e foi
desligada logo que correu a notícia da Iniciação. A segunda Loja a adotar a
Iniciação feminina foi a “La Jérusalem Écossaise”, onde Georges Martin foi
Venerável Mestre. Ambas as Lojas adotavam o Rito Escocês Antigo e Aceito. Esse,
obviamente, foi o rito adotado inicialmente para o desenvolvimento da
Co-Maçonaria.
A primeira Grande Loja fundada fora da França foi a de Zurique, em 1895. Ela
constituía a seção nº 3 da “Grande Loge Symbolique Écossaise Mixte de France”, e
era considerada como uma das cinco Lojas (a quinta foi fundada em 1902) do “Le
Droit Humain” ainda unicamente francês. Em 1900, a Ordem Co-Maçônica tornou-se
internacional e, para tanto, foi fundado um Supremo Conselho Misto dito
“universal”, bem como o “Le Droit Humain” Internacional.
Em 1902, a Loja nº 6, “Human Duty”, foi criada em Londres, sob a impulsão de Annie
Besant, importante figura dentro da Sociedade Teosófica e autora de diversos livros
ocultistas traduzidos para o português e consumidos por maçons brasileiros, de
Francesca Arundale e de George Arundale.
A fundação, seguida da iniciação de quatro novos membros, teve lugar em 26 de
setembro, no REAA, rito de base do “Le Droit Humain”. Mas a partir da reunião
seguinte, um ritual inglês — muito provavelmente o de Emulação — foi implementado
com a autorização das autoridades do “Le Droit Humain”.
Os fundadores da nova Loja londrina tinham consciência da necessidade de ter uma
prática maçônica o mais próxima possível da inglesa, para que sua oficina pudesse
se desenvolver em uma Inglaterra totalmente indiferente, senão francamente hostil,
à noção de Co-Maçonaria. Era preciso adotar sem demora um ritual em harmonia com
aqueles praticados nas lojas masculinas inglesas. Se a questão fosse simplesmente
constituir uma loja co-maçônica de franceses que, por razões profissionais ou
outras, vieram a se instalar na Inglaterra, poder-se-ia conceber de continuar a
utilizar o REAA — mas não era o caso: tratava-se de implantar e desenvolver a
Co-Maçonaria na Inglaterra.
Entre 1915 e 1925, Annie Besant, ajudada por C. W. Leadbeater (1847-1934), outro
notório teosofista e autor de livros fantasiosos baseados em “clarividência” ou em
métodos que incluíam a conversa com uma gata, elaborou rituais específicos para a
Federação Britânica. Tais rituais misturavam alguns elementos: o ritual de Emulação
inglês, alguns usos do Rito de York (norte-americano), o REAA como era praticado na
França, alguns elementos do Rito de Mênfis-Misraim, procedimentos muito
influenciados por usos eclesiásticos — Leadbeater fora padre da Igreja Anglicana e
era bispo da Igreja Católica Liberal, também ligada à Sociedade Teosófica — e as
doutrinas teosofistas.
Em 1916, a revisão dos rituais do Craft (Graus Simbólicos) foi terminada.
C. W. Leadbeater logo escreveu um livro de interpretações ocultistas para o ritual
que ele mesmo tinha ajudado a compor, e esse livro se tornou um sucesso no Brasil:
A Vida Oculta na Maçonaria, também editado pela Editora Pensamento.
Alguns dos membros do recém-fundado “Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita”
eram leitores dessas obras, sem contar o expressivo número de maçons que também
eram membros da Sociedade Teosófica.
A necessidade de reformulação e a possibilidade de alterar sensivelmente os
rituais em uso, utilizando a apreciação pela doutrina teosofista de Leadbeater,
caíram como uma luva. Os procedimentos descritos em A Vida Oculta na
Maçonaria logo estariam figurando nos novos rituais do Rito Adonhiramita.
A divisão em 33 Graus citada por Leadbeater, com acentuadas explicações ocultistas,
unida à necessidade de atrair Irmãos do REAA para o Adonhiramita, também veio a
calhar.
Dentro de 9 anos, ou seja, em 1982, o Rito Adonhiramita no seio do GOB e do ECMA
estava completamente transformado: 33 Graus, Cerimonial de Incensação, Cerimonial
de Acendimento das Luzes, acentuada influência ocultista e uma tendência a
contínuas modificações.