Adonhiramita

O Rito · Parte 1 de 3

História e
idiossincrasias

Irm.ʹ. André Otávio Assis Muniz

Pretendemos com este artigo fornecer pistas de pesquisa e elementos básicos para que o pesquisador maçônico possa guiar-se e desenvolver desdobramentos fiáveis sobre o Rito Adonhiramita, longe das invenções e das teorias sem base que abundam sobre ele.

I. Problemática do tema

Pesquisar sobre o Rito Adonhiramita é defrontar-se com uma montanha de opiniões, teorias e idéias cristalizadas que, em geral, correspondem-se muito pouco com a realidade histórica dos fatos. Escrever sobre ele requer a disposição necessária para enfrentar a oposição dos que, de uma forma ou de outra, sentem-se mais confortáveis com a mistificação e com a lenda, em prejuízo dos fatos e da história documentada.

Desde a década de 1970 se criou uma impressão de que o Rito seria místico em demasia, que traria idéias muito diferentes de outros ritos ou até, absurdamente, que seria, por essas tantas diferenças, um rito “irregular”.

As fontes oficiais, ou seja, os rituais e os documentos expedidos pelas instituições do Rito, não são rigorosas com os métodos de pesquisa histórica, o que leva a um emaranhado de informações não verificáveis e oriundas de fontes sem isenção ou sem valor para a pesquisa dos fatos originais. Uma rápida pesquisa pela internet revela uma verdadeira montanha de relatos e resumos, um mais inexato e fantasioso que o outro.

II. Origens do Rito

II.1 O contexto histórico: a França maçônica do século XVIII

O Rito Adonhiramita é filho da Maçonaria francesa. Para compreender suas origens é necessário compreender como se desenvolve a Maçonaria francesa no século XVIII.

Na França a Franco-Maçonaria obediencial, ou seja, regulamentada por um sistema institucionalizado, foi implantada por volta de 1725, através de imigrantes ingleses exilados por razões políticas ou religiosas. Em Paris é notável o número deles e sua origem, em geral, é Londres. Junto com suas bagagens trazem os costumes e procedimentos maçônicos utilizados na capital inglesa daquela época, da primeira Grande Loja de 1717. Esses primeiros costumes sofrerão significativas mudanças em pouco tempo.

Na Inglaterra, a partir de 1725, com o desenvolvimento do Grau de Mestre, começam a se desenvolver os Graus de Aperfeiçoamento. Muitas Lojas os praticam e não havia nenhum regulamento em relação a eles. Os mais antigos fazem referência à lenda do terceiro grau e ao espírito cavalheiresco. Obviamente que, com o trânsito de maçons entre Londres e Paris, esses desenvolvimentos, em pouco tempo, estarão em uso no território francês.

Em 1730, a Grande Loja de Londres introduz inovações em seus procedimentos litúrgicos como reação ao tristemente célebre Masonry Dissected de Samuel Pritchard, que seria traduzido e reeditado na França em 1745 como L’Ordre des Francs-Maçons trahi.

Com o sucesso de vendas da obra de Pritchard, e com a lenda de que os franco-maçons se ajudam financeiramente, de que nenhum maçom é deixado na penúria, de que sendo maçom a vida se torna mais fácil, há verdadeira corrida de uma horda de profanos que, tendo se apoderado dos segredos ritualísticos das Lojas através da citada obra, apresentam-se às Lojas como maçons.

As modificações introduzidas pela Grande Loja de Londres, visando identificar os falsos maçons produzidos pela obra de Pritchard são, basicamente, a inversão do pé da marcha, a inversão das Colunas dos Aprendizes e Companheiros, a mudança das palavras e a introdução de uma palavra de passe no Grau de Aprendiz.

Em 1728 estava organizada a primeira instituição maçônica na França, a Grande Loja da França. Em 1735, a Grande Loja da França solicita da Grande Loja de Londres a autorização necessária para tornar-se uma Grande Loja provincial, o que foi negado. Em 1743, a autorização foi dada e uma instituição foi constituída com o nome de Grande Loja Inglesa da França. Essa mesma instituição, em 1773, mudaria seu nome para Grande Oriente da França.

Os rituais transplantados de Londres a Paris são, obviamente, os já modificados 13 anos antes, ou seja, com as Colunas invertidas, a mudança das palavras, o pé direito iniciando a marcha e a Palavra de Passe no Grau de Aprendiz.

As Lojas francesas praticavam tanto os 3 Graus Fundamentais — Aprendiz, Companheiro e Mestre — quanto os Graus de Aperfeiçoamento. Com o passar do tempo, quase em cada província francesa haverá um sistema diferente. A criação de sistemas ritualísticos como a Reau-Croix, conhecida como Ordem dos Sacerdotes Eleitos do Universo (Elus Cohen) na década de 1740, a Estrita Observância Templária, de origem alemã, e o sistema conhecido como Rito de Perfeição de Heredom (1758), originado com o discurso de Ramsay em 1738, que misturavam pretensões políticas, valores cavalheirescos e temas alquímicos, herméticos e esotéricos, produziram o caldo cultural necessário para uma verdadeira explosão de Graus Maçônicos.

II.2 Adonhiram

A Constituição da Grande Loja de Londres, dita “de Anderson”, cita Adonhiram como o chefe dos trabalhadores nas Montanhas do Líbano, em número de 30.000, que se revezavam com os sidônios. Na obra de Samuel Pritchard, na parte relativa ao Grau de Mestre, aparece o nome de Hiram e não Adonhiram.

Alguns rituais franceses do século XVIII, como o reproduzido no Le Régulateur du Maçon (1785/1801), falam de Hiram como aquele a quem Salomão deu a autoridade sobre todos os obreiros, a saber: 30.000 homens destinados a cortar os cedros do Líbano, 70.000 aprendizes, 80.000 companheiros e 3.300 mestres.

Fica fácil perceber aqui a causa da confusão. Se Anderson fala que os 30.000 trabalhadores das Montanhas do Líbano estavam sob as ordens de Adonhiram, e os rituais falam que esses mesmos 30.000 homens estavam sob as ordens de Hiram, então Hiram e Adonhiram devem ser o mesmo personagem. Só que a Constituição de Anderson, na sequência, fala que Hiram, Rei de Tiro, enviou seu homônimo “o Maçom mais completo sobre a Terra”, Hiram ou Huram.

Em 1744 foi publicado o Catechisme de Franc Maçons ou Le Secret Des Franc Maçons, escrito por Louis Travenol que, utilizando o pseudônimo de Leonard Gabanon, denominava “Adonhiram” ao arquiteto chefe das obras do Templo de Salomão, o qual comumente é denominado, nos dias de hoje, apenas de Hiram.

Cabe frisar que em outros rituais franceses do período aparece também o nome Adonhiram e, inclusive, continua aparecendo em rituais do Rito Moderno de 1788. Ou seja, não é uma particularidade da obra de Louis Travenol e nem uma “irregularidade” do Rito. Trata-se de algo bastante generalizado na Maçonaria francesa do século XVIII.

A mim, como pesquisador maçônico, parece que houve alguma confusão entre os personagens bíblicos Adoniram, que era chefe dos trabalhos forçados para a construção do Templo (2Sm 20,24; 1Rs 5,14) e que acabou sendo morto a pedradas pela revoltada população (1Rs 12,18), e Hiram Abif, filho de uma viúva da tribo de Naftali e de um cidadão de Tiro, que era hábil no trabalho com bronze (1Rs 7,13-22) e com muitos outros materiais (2Cr 2,13-14). Essa confusão pode ter sido aumentada e reafirmada pela prática de alguns Altos Graus onde a figura de Adonhiram reaparece.

A explicação de que se trataria da utilização do pronome de tratamento hebraico “Adoni” (senhor) antes do nome próprio “Hiram” não parece muito plausível, tendo em vista que em nenhum outro local da Bíblia se vê esse tipo de utilização. Adonías, por exemplo, quarto filho do Rei Davi, citado nos livros de Reis e Samuel, não era o “Senhor Onías”.

II.3 A normatização dos graus e a Compilação Preciosa

Ao longo de quase 50 anos, como podemos ver, os graus e sistemas se multiplicavam ao ponto de um mesmo grau ter dezenas de versões diferentes e variações importantes nas palavras de reconhecimento.

Em 1773, devido ao caos instalado pela enormidade de graus praticados sem qualquer regulação, o Grande Oriente da França, tentando introduzir alguma uniformidade nesse emaranhado, cria uma comissão dos Altos Graus que permanecerá com uma atividade bastante modesta até 1782, quando será criada a Câmara dos Graus.

Em 1780, como reação à publicação do Catechism de Franc Maçons, mais uma obra medíocre das tantas que abundavam — e ainda abundam —, que desagradou profundamente a um grande maçonólogo da época, Louis Guillemain de Saint Victor, este preparou um estudo contendo pesquisas relativas aos mistérios da Antiguidade, e lançou dois anos depois a Recueil Precieux de La Maçonnerie Adonhiramite — Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita.

A parte publicada em 1782 abrangia 4 graus: Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Perfeito. Em 1785 ele lança uma segunda parte, onde outros graus eram tratados:

  • Primeiro Eleito ou Eleito dos Nove
  • Segundo Eleito ou Eleito de Perignam
  • Terceiro Eleito ou Eleito dos Quinze
  • Aprendiz Escocês ou Pequeno Arquiteto
  • Companheiro Escocês ou Grande Arquiteto
  • Mestre Escocês
  • Cavaleiro da Espada, Cavaleiro do Oriente ou da Águia
  • Cavaleiro Rosa-Cruz

Ao final dessa edição constava também a tradução do alemão de um grau denominado Noaquita ou Cavaleiro Prussiano, atribuído a um autor maçônico denominado Bérage. Este “13º” foi interpretado por alguns autores como o último grau da Maçonaria Adonhiramita. No entanto, se bem analisado o contexto, fica claro que não existe qualquer ligação entre os graus anteriores e esse 13º grau. Além do mais, o próprio autor afirmou que o grau de Cavaleiro Rosa-Cruz é o ápice e o término de seu sistema.

Cronologia

O período em que Louis Guillemain de Saint Victor escreve é decisivo para a Maçonaria francesa. Estas são as datas que o cercam.

O Grande Capítulo Geral analisaria nada menos de 81 graus diferentes, entre os quais 75 Altos Graus só entre os chamados “escoceses”, e mais de 135 sistemas ou ritos. Tentaria resumi-los em 5 Ordens, que se tornariam o fundamento da ortodoxia maçônica na França. A 5ª Ordem, chamada Ilustre e Perfeito Mestre, seria o grau acadêmico e administrativo destinado a conservar e estudar todos os graus e sistemas.

O Grande Oriente da França e o Grande Capítulo Geral entrariam em conflito diversas vezes, pelo fato de haver certa confusão em relação à autoridade sobre os graus e as Lojas.


Continuar: a Compilação Preciosa e o Rito no Brasil