Como tradicionalista, não tenho absolutamente nada contra os ensinamentos
herméticos ou as tradições esotéricas. Leia-se bem: tradições
esotéricas.
Uma Tradição é a transmissão, de forma ortodoxa, de um conjunto de ensinamentos
cuja origem se perde na noite dos tempos e cujo rastro pode ser historicamente
traçado através de escrituras, documentos, registros, mitos etc. que, em geral,
contam com vasta fundamentação simbólica, filosófica e até antropológica.
Bem diferente de uma autêntica Tradição Esotérica é uma invenção baseada em uma
suposta clarividência, intuição ou achismo sem fundamentação, sem respaldo em
qualquer tradição e sem uma lógica interna que possa, sequer, justificar a sua
existência dentro de um determinado sistema de maneira coerente.
Não só o Rito Adonhiramita, mas infelizmente todos os Ritos Maçônicos são
vitimados pelo que chamamos de “iluminados”, que tiram do bolso “descobertas”,
“usos e costumes”, “melhorias”, “adaptações” ou “interpretações” que fazem com que
intelectuais não iniciados e indivíduos externos mais qualificados, ao analisarem
a Maçonaria, acabem por considerá-la como uma imensa maçaroca de crendices mal
digeridas, recoberta com o discurso de “combate à ignorância, à superstição e ao
fanatismo” para ocultar uma grande inanição intelectual.
Como instituição que deve zelar por ensinamentos tidos por “esotéricos”, ou seja,
reservados a um grupo seleto, seria desejável que o processo de seleção
contemplasse um rigor bem maior, especialmente no que tange a atributos
intelectuais e morais, além da adoção de critérios claros e rigorosos para
qualquer tipo de alteração em rituais.
A circulação em infinito
No Rito Adonhiramita atual, alguns procedimentos são invenções puras e simples. Um
exemplo é a “circulação em infinito”, que não consta em nenhum documento histórico
do Rito e nem em qualquer outro ritual de onde poderia ter sido tirado.
Apesar da interpretação forçada para enxertar um significado, o fato é que não há,
em toda a história litúrgica do Ocidente ou do Oriente, a tal “circulação em
infinito”.
Inventem explicações místicas, ocultistas, extraterrestres ou seja lá o que for.
Mas não chamem isso de Tradição e nem tentem obrigar os outros a acreditar nisso.
Não contentes com a tal circulação, os “iluminados” ainda inventaram que é
necessária uma inversão em seu sentido de acordo com o Grau trabalhado,
transformando a circulação em Loja num verdadeiro bailado e um inferno para os
oficiais que necessitam se movimentar. Pior ainda é que o sentido das circulações
muda a cada reforma nos rituais.
A passagem por trás da cadeira do Venerável
A passagem obrigatória por trás da cadeira do Venerável é outra invenção. Tentando
imitar a “Ara” do Ritual de Lauderdale (que foi imitada do Rito de York
norte-americano), sobre a qual fica a luz perpétua ou “fogo sagrado” (imitada do
Rito de Mênfis-Misraim), mas arrastando a mesma Ara para o Oriente, alguém achou
bonito imitar o uso norte-americano de não atravessar a linha entre a Ara e a mesa
do Venerável Mestre — e, como a Ara está no Oriente (pois o painel tem que ficar no
meio da Loja, o que não acontece nem no Lauderdale, nem no York), a solução foi
esmagar o pobre oficial em trânsito entre a cadeira do Venerável e a parede do
Oriente.
Se o erudito Louis Guillemain de Saint Victor assistisse a uma Loja do Rito
Adonhiramita hoje, ficaria bastante chocado por ver tantas e tantas inovações.
Há também a longa e enfadonha história das cores de gravatas, as discussões sobre
gravatas borboletas ou comuns, uso ou não uso de balandrau e outras muitas
inutilidades completas que tomam o tempo de quem gostaria de se dedicar a estudos
mais sérios e acaba sendo envolvido em debates sobre gravatinhas, frufrus, cor de
terno e até de meias — mas que nada trazem em matéria de compreensão de si mesmo,
do ser humano, da humanidade, do cosmos, ou sequer da história ou das autênticas
tradições do Rito que está sendo praticado.
Da mesma forma, vemos com assombro notórias invenções e teorias apócrifas sobre a
história do Rito Adonhiramita (e também de outros ritos) sendo estampadas nas
edições oficiais dos Rituais, que não apresentam fontes, bases ou elementos
minimamente fiáveis sobre o que apresentam. É lamentável ver os Aprendizes a serem
doutrinados com esse tipo de material de baixo nível.